28.9.14

Amar é como dar um passeio de bicicleta

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Amar é como dar um passeio de bicicleta. Numa sexta-feira chuvosa de lua cheia em um parque onde não se tem certeza do nome.
Aprendi numa crônica do Antonio Prata que no futuro nós dois podemos simplesmente acabar em uma lanchonete perto do meu trabalho mexendo canudos em copos de suco de laranja (seu preferido) ou quebrando palitos de dente, evitando os olhos e escondendo as mãos. Ele disse que amar é dar um salto. Pois eu pedalei.
Em direção a tantas coisas inomináveis no começo. Ao descobrir que não exista mocinho e bandido ou onomatopeia colorida para vibrar em cada sussurro doce ou piada infame. A gagueira que pequenas declarações românticas podem propor.
As pequenas sabotagens. O tamborilar dos dedos apressados na mesa, contando minutos ansiosos. Descobri que não é só a camiseta do Al Capone ou mesmo meu gosto por filmes de máfia, canções do Led Zeppelin e opiniões políticas voltadas para a esquerda (ah, a esquerda!) que nos une.

Descobrir que não existe um termômetro para a perfeição a não ser aquele calor imenso e aconchegante que sinto quando eu descubro em você uma história nova, uma careta esquisita ou um tique. Porque “isso” vira “nós”. Ainda bem. 

passagem só de ida.

Quando eu comprei a passagem de ida para essa aventura, não sabia ao certo o nome do país que transformaria em lar-temporário-sem-prazo-para-deixar-de-ser-temporário. Não sabia se fazia frio ou calor ou frio e calor.
Não sabia qual o prato típico do lugar, se os habitantes costumavam acordar de bom humor, tomar café e cumprimentar os vizinhos de manhã.
Não sabia se seria bem recebida, ou se me adaptaria. Carregava comigo uma pequena mala de bons sentimentos, receios e vontade, ah muita vontade. Me propuseram a viagem e eu disse “sim! Sou uma boa visita e até lavo louça”.
Poderia ser uma ilha perdida no Pacífico, ou ter chalés com pequenas montanhas em volta. Poderia ser uma praia onde o sol ficava suspenso, encharcando o mar com suas cores: laranja, vermelho, rosa e as vezes lilás.
Sei que a tarifa do voo não foi nada barata: custava montes do meu orgulho e coragem. Os gastos extras com paciência quebraram o meu orçamento durante um tempo. Entretanto, a vida tinha uma dívida comigo e sabia que aquele tanto seria recompensado em pequenas parcelas surpresas. Que ainda estão sendo pagas.
Pousar nesse novo país e admitir que ele poderia ser minha casa durante um tempo foi uma tarefa árdua. E nunca desejei estar em outro lugar que não fosse aquela cadeira numerada.
A terra nova me parecia conhecida. Como um flash, eu estalava os dedos e ela continuava lá, tão familiar e confortável. Aprendi o idioma, embora não tenha perdido o sotaque de antes. A previsão do tempo hoje me parece simples de interpretar. Embora quase sempre faça sol, carrego um casaco comigo para me proteger de possíveis geadas.
Meu país é como uma ilha de sol com pequenos lagos em volta. As vezes teima e me arrasta com seu vento forte que rapidamente se tornam tempestades, em outras não consegue mover um centímetro do meu corpo em sua direção. Assim convivemos, assim existimos.

O amor é uma grande viagem. E eu não quero passagens de volta.

15.6.14

Etéreo Estereótipo

Copo meio cheio, copo meio vazio.

Ela não gostava de exposições. Não lia Bauman, nem tinha os olhos de ressaca que eu sonhei. Dormia cedo, comia pão de granola e nunca falava palavras difíceis. Gostava de montanhismo, montava em bicicletas com a facilidade de uma criança. Arfava com minhas explicações metafísicas. Lançava olhares para o nada, dissimulando os pequenos demônios interiores que tentava esconder desde que leu aquela super matéria de 6 páginas na Vida Simples. Prendia o cabelo com lápis BIC verde, tinha 2 agendas coloridas e nenhum telefone. Tinha 1,78 de altura, parecia uma estátua indiana com os cabelos puxados para trás. Falava pinto e pau, xota e bater uma na frente dos amigos, mas morria de vergonha de tirar o sutiã assim de sopetão, antes do banho. Era meu copo meio cheio de pequenas esperanças cotidianas.

***

Ele não lia meus artigos sobre esporte. Não sabia o que era IMC, não escutava rádio em inglês. Nem falava inglês. Tinha olhos cansados por causa da ressaca. Café da manhã era coca-cola com pizza velha, meu estereótipo americano. Não pagava as contas do cartão de crédito antes do vencimento, visitas ao banco, apenas em casos urgentes, como quando a gasolina acabava e nenhum caixa eletrônico dava sinal de vida. Boêmio, tirava sarro das minhas vitaminas de espinafre. Não acordava antes das 10h, só dormia depois das 2h.
Conheci-o em um bar? Uma conferência chata de um trabalho mais ou menos? Ou num restaurante de comida indiana? Não lembro. Aliás, seu tipo era pitta.

Era meu copo meio vazio de neuroses e preocupações mundanas. 

5.6.14

amarillo


"Girassóis" de Vincent Van Gogh 

Meu coração parou duas vezes durante minha vida. Em 1992, durante uma má transição do fluxo na corrente sanguínea. Corpo hedonista e cardiologista disputaram palmo a palmo meu miocárdio: enfartei. A primeira pausa ocorreu quase trinta anos antes em Santiago do Chile, quando vi Maga. Lembro-me de seus olhos tremeram e baixaram antes de se postarem frente aos meus. Recompuseram-se rapidamente, um costume magnífico que tardei a dominar.
Magali vestia um casaqueto amarillo, a palavra que os espanhóis usam para nomear a cor que vibrava como o sol. Firme, solene, e encurralada por duas tias velhas, na missa dominical. Devíamos ter nossos dezesseis, dezessete anos, e, apesar de minhas tendências religiosas terem sido consumidas durante a estadia no acampamento dos padres, freqüentava a paróquia.
Debrucei-me no banco de cimento. O peito me escapara um pouco: nunca tinha avistado garota tão singular na brevidade dos meus dias. As cores dos cabelos de Maga beijavam o mundo quando soltos. As bochechas coradas, sem pó de maquilagem, e seu nariz reto em nada surpreendiam, em nada completavam-se. A estética vinha de dentro. Desabrochava na superfície amarela do casaco, feito a lenda da flor amazônica sobre os lagos indígenas.
Despi-me de minha rotina. Segui-a por todos os cantos nas férias de 1963. Saberia enumerar com precisão suas frutas preferidas nas feiras de rua. Abacaxi, tangerina e uvas. Quantas vezes visitara Paulina, a vizinha da avenida paralela à minha casa. 12. Decorei cada nota de rock que saía de seu quarto. Love, Love me do.You know I Love you. Tomei-a para mim.
Aquele domingo e os conseqüentes trataram de adequar-se a minha educação sentimental. O nome terminado em “o” certamente fora a primeira sacada irônica do destino sobre mim. Nada tenho do Romeu shakespeariano, minha abuelita acertou em cheio com a customização. Romeo, um nome que Maga nunca pronunciou.
O “meu” romance findou logo o pai Capuleto notara-me rondando a vizinhança. Cerrou as janelas da casa, obrigou as irmãs carolas a substituírem a igreja do bairro por uma do outro lado da cidade. Já eu precisava voltar ao Rio para prestar Direito. Nunca deixei-me perder a paróquia nem o casaco amarillo. Não esqueci a chica.
Maga foi meu primeiro caso de observação amorosa.


Originalmente publicado aqui: 

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